Saúde

Impactos de vida após o tratamento do câncer demandam atenção de médico e paciente

Tema esteve entre os destaques da programação do Congresso Todos Juntos Contra o Câncer; Dificuldades na retomada da vida inspiraram livro e grupo de apoio

O fim do tratamento de um câncer é sempre motivo de comemoração e alívio. Ainda sim, é natural que os pacientes permaneçam conectados à doença, seja por medo de uma recidiva, como também por conta de sequelas físicas e emocionais, que acabam afetando seu lado pessoal e profissional mesmo depois do tumor. Estes impactos do câncer na vida do paciente após o tratamento estiveram entre os temas centrais do 6º Congresso ‘Todos Juntos Contra o Câncer’ (TJCC), que aconteceu em São Paulo entre os dias 3 e 5 de setembro.

Segundo o oncologista Rafael Brant, do Grupo Oncoclínicas em Minas Gerais, e um dos palestrantes do painel ‘Terminei meu tratamento, e agora?’ – debater o tema entre profissionais e o público em geral é fundamental. Ele ressalta que, muitas vezes, as discussões ficam apenas em torno do tratamento em si, desconsiderando-se a importância do apoio multidisciplinar ao paciente não apenas durante sua jornada de combate à doença como na continuidade do acompanhamento das questões individuais posteriores a essa fase.

Fadiga crônica, déficit de concentração e memória, estresse e depressão são alguns dos possíveis problemas que afetarão o cotidiano do paciente após o câncer, dificultando a volta à rotina profissional e pessoal. “Dependendo do procedimento necessário para o tratamento, os efeitos podem ser prolongados nos pacientes, sejam físicos ou emocionais. A gente sabe, por exemplo, que um terço vai manter os sintomas do tratamento a longo prazo, mesmo depois que ele tenha terminado”, alerta o especialista.

Os diversos tratamentos oncológicos podem levar ainda a impactos que precisam ser entendidos e conversados entre especialistas e pacientes. “Por exemplo, o tratamento do câncer de mama, câncer de testículo, ou até mesmo os medicamentos usados no combate a um linfoma, podem ter consequências na fertilidade tanto de homens quanto de mulheres, e isso, claro, afetará a vida pós tratamento do paciente que queira ter filhos. Então, é fundamental que os médicos e os pacientes conversem, se informem e busquem as melhores formas de lidar com a situação. Mesmo antes do tratamento, saber exatamente o que esperar e ver as possibilidades que existem para melhorar o bem estar de quem sofreu com a doença é imperativo”, comenta Rafael.

A visão é compartilhada pela hematologista e especialista em medicina integrativa do Grupo Oncoclínicas em São Paulo, Regina Chamon. “O impacto emocional gerado por todo o processo de recuperação do câncer não pode ser negligenciado. Para se ter uma ideia, a média de pessoas que apresentam medo de recorrência do câncer pós tratamento é de 50%. Ou seja, ao menos metade dos pacientes sofrem com estresse em algum nível gerado pelo medo de voltar a apresentar sinais da doença. Isso, somado a outras sequelas geradas pelo diagnóstico e tratamento, vão levar a alterações físicas e emocionais que, obviamente, precisam ser acompanhadas de perto para garantirmos qualidade de vida ao paciente”, ressalta a médica, que também participou do painel de discussões no TJCC.

Para Regina e Rafael, o ponto chave é apoiar o paciente e pessoas próximas para que essa nova etapa seja encarada de forma mais leve, entendendo que as mudanças na rotina são parte do processo de recuperação e fortalecimento.

Vida pós-tratamento inspirou livro

A coach Carine Cidade, 45, passou exatamente por essa situação. Aos 29 anos, ela foi diagnosticada com um tumor no seio e precisou retirar uma das mamas e passar por sessões de quimioterapia. Anos depois, por conta de suspeita da doença, retirou o outro seio e, há quatorze anos passou por uma cirurgia para remover o útero, por conta de um mioma. As consequências dos sucessivos tratamentos não foram poucas: mais de dez cirurgias para reconstrução do novo corpo.

Além das intervenções, o desejo de ser mãe foi quase abandonado. “Primeiro perdi meu seio e fiquei muito sentida por não poder amamentar. Depois perdi o útero e quase desistir do meu sonho de ser mãe. Mas, em 2015, conheci meu filho de coração em um abrigo mágico em Salvador e o adotei com cinco anos de idade. Me tornei mãe aos 40 anos e hoje sou a mulher mais feliz do mundo”, relata.

Durante o processo, Carine teve contato com diversas outras pacientes que passaram pela mesma situação que ela, mas que se sentiam desmotivadas a encarar os desafios impostos pelo tratamento e suas consequências. Foi assim que ela fundou o grupo de apoio Inspire Ser, para reunir mulheres passaram por experiências similares.

“Eram mulheres que relatavam que superaram o processo do câncer, mas que ainda se sentiam inquietas, com as mudanças, não tinham mais perspectivas de vida, medo de encarar o novo. Isso tudo afetava suas relações pessoais, rotina e sua vida como mãe, mulher e profissional e impactava em seu comportamento tornando difícil entender o tempo para seu recomeço”.

Os relatos foram a inspiração para o livro “Inspire Ser: mulheres e o câncer!”, que reúne a história de várias das participantes do grupo. Para Carine, a obra é a sua “cura constante”, por conectá-la a mulheres “extremamente inspiradoras” e o poder de levar as mensagens “continuamente”.

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Bruna Munhoz

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